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quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Visitantes no Embaixada Poética.

Rio de Janeiro, 01 de novembro de 2011

Caminhos do Rio




"A Rua do Ouvidor resume o Rio de Janeiro.
A certas horas do dia, pode a fúria celeste destruir a cidade;
se conservar a Rua do Ouvidor, conserva Noé, a família e o mais.
Uma cidade é um corpo de pedra com um rosto.
O rosto da cidade fluminense é esta rua,
rosto eloqüente que exprime todos os sentimentos e todas as idéias..."
MACHADO DE ASSIS (1839-1908),Outros Contos: "Tempo de Crise"

Não é de hoje que digo que percorrer as ruas do Rio de Janeiro a pé pode surpreender o passante e fazê-lo perder-se em reminiscências de um tempo somente descrito em livros.
Outro dia, passando pelo centro da cidade eu vinha perdida em pensamentos quando me encontrei em uma rua estreita onde passavam pessoas tão apressadas quanto eu. No entanto, apesar da pressa, num vislumbre e ainda buscando passagem entre o povo, percebi a sorte de estar em um desses recantos da cidade onde é quase impossível andar sem quedar-se de admiração.
Era a Travessa do Ouvidor, pequena rua que começa na Rua do Ouvidor e termina na Sete de Setembro.
Quase tropeçando na estátua de Pixinguinha, um dos maiores compositores de nossa música popular, me surpreendi com tantas informações numa rua tão pequena. Tão pequena que precisei quase entrar pela Livraria da Travessa, para me afastar dos pedestres e poder ver o todo. Essa livraria em particular, pelos idos de 1970, foi inaugurada com o nome de Muro, numa alusão a Guerra Fria ou à Ditadura Militar. Lá se reuniam os chamados “poetas marginais” para recitar e promover seus livros artesanais, raridades bibliográficas. Essa livraria era em Ipanema e mais tarde, na década de 1980, abriu filial na Travessa do Ouvidor, adquirindo por isso o nome que tem hoje.
Atrás da estátua de Pixinguinha, no muro baixo que ladeia quase toda a rua de um dos lados, foi pintado um mural representando o casario antigo. Em outro muro mais uma homenagem ao compositor; uma pintura retratando a boemia carioca. Em alguns bancos espalhados pessoas iam seus jornais ou simplesmente se deixavam ficar quietas. A surpresa de lugar tão atípico e bem cuidado me fez ficar em silêncio, mas tanta gente passava por ali naquele momento que nem pude clicar o instante mágico. A decoração que faz dessa travessa algo especial não é relíquia dos tempos, mas faz uma alusão tão simpática a cultura e história da cidade que merece ser citada.
A Travessa tem o nome da Rua do Ouvidor, que teve sua origem como acesso ao “Trapiche de Ver o Peso” do antigo Porto da cidade. Com a vinda da família real e a abertura dos portos ela ganhou um status de luxo e chegou a ser comparada a Rue Viviene de Paris. Um comércio variado se estabeleceu vindo da Europa, a rua foi calçada e proibido o tráfego de carros de boi e, mais tarde, de cavaleiros.
Aberta em 1568 com o nome de Desvio do Mar, foi a primeira rua a receber iluminação a gás na cidade, em 1860. Era conhecida como a Rua dos Jornais, pois por lá se instalaram vários deles como o do Commércio, a Gazeta de Notícias e a redação da Cidade do Rio, de José do Patrocínio, entre outros. Era uma rua onde se fazia e se buscava a notícia, um lugar onde se praticava o incansável jogo do “ver e ser visto” da sociedade carioca. Nas hospedarias desta rua, Tiradentes e Duque de Caxias fizeram pousada em diferentes ocasiões. O nome Ouvidor surgiu de forma natural, adotado pela população, pois ali morava o Ouvidor Dr. Manoel Pena de Mesquita Pinto, mas a rua já teve vários outros que não vingaram.
Mais tarde com a abertura da Avenida Central, hoje Rio Branco, a Ouvidor viria a perder seu posto de principal artéria da cidade, ocupado por mais de 90 anos. No entanto ainda hoje é considerada uma importante rua comercial da cidade onde se espalham várias lojas, principalmente no segmento de vestuário.
A Rua do Ouvidor foi um caminho de construção da cultura carioca e por ela passaram personagens ilustres como Castro Alves; o “poeta dos escravos”, Joaquim Nabuco; um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, Machado de Assis autor de Dom Casmurro e o brilhante Rui Barbosa, entre outros. Por caminhos assim tropeço feliz em arrebatadores momentos de descoberta e freio o ritmo acelerado do dia a dia para folhear a história e a cultura da cidade como quem lê um livro generoso em seus capítulos.
"Vós que tendes a cargo o aformosamento da cidade,
alargai outras ruas, mas deixai a do Ouvidor assim mesmo -
uma viela, como se chama o Diário -
um canudo como lhe chamava Pedro Luis.
Há nela, assim estreitinha,
um aspecto e uma sensação de intimidade.`
É a rua própria do boato.
Vá lá correr um boato por avenidas amplas e lavadas de ar."
Machado de Assis
A Semana: 13 de agosto de 1893
 
 

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